quinta-feira, 16 de março de 2017

Chesterman, Estratégias Léxico-Sintáticas



Homework (II) for March 30 - Ezra Pound

- Read Pound's essay "How to Read" (especially part II, p. 127-129) and answer and comment on the extent to which his theory of the "kinds of poetry" - melopoeia, phanopoeia, logopoeia - relates with translation.

- Select your favorite poem from Cathay (p. 110-122), explain why you prefer it, and then try to identify in it examples and processes ovf "melopoeia", "phanopoeia" and "logopoeia".

Homework for March 30 (I), text analysis for April 6

1. Comment on the blog: we shall discuss your comments / draft analysis on the 30th March

2. Write up your final text analysis by April 6 (no more than two pages, font size 12, 1,5 spaces)

3. Here is your text: the version of 1935 of the poem "Poetry" by Marianne Moore: https://studio.edx.org/asset-v1:HarvardX+AmPoX.6+2T2016+type@asset+block/Moore-Poetry.pdf

"O Búfalo", Marianne Moore (tradução de Margarida Vale de Gato)

O Búfalo
    
         O preto nos brazões significa
prudência, a negritude o aziago. Terá
a hematite-
     -preta dos chifres recurvos do bisonte
         algum significado? A
cauda em tufo de escura fuligem
     numa espécie de rabo

     leonino: que pode exprimir?
E o Ajax de John Stewart Curry a puxar
ervas – sem argola
     no focinho – os dois passarinhos no lombo?
        
         * * *
         A moderna
rês não condiz com o retrato da rês
de Augsburgo. Sim,
     a besta extinta, o bravo auroco, era grande
         de se pintar, com listras
e uma ampla armação de cornos – então rebaixado
            à forma siamesa

         de gato ou boi pardo-
suíço ou senão zebu, de fofa e alva papada e bossa de sangue
quente; ao boi
     Hereford encarnado ou ao Holstein variegado. Porém,
         segundo alguns o búfalo de pêlo ralo é
     o mais talhado
            para padrões humanos –

     ao contrário do elefante,
que é jóia e ourives das crinas
que enverga –
     não o boi de focinho branco de Vermont arcando
         com sua parelha a seiva de ácer,
ambos atolados na
            neve; sequer o aberrante

         Boi de Atropelo que desenhou
Rowlandson, mas o búfalo das Índias,
albino
     nas patas sobre um charco de lama com um
         dia de labuta à frente. Tão-pouco
     um branco ateu cristão tres-
            malhado pelo Buda

         se adapta tão bem como o
búfalo – mais endriabado quanto domar
o queiram – o livre cachaço
     esticado e a cauda de cobra num laço
         sobre o flanco; sem gana
alguma de ser manso
            com o sábio sentado com os pés

         do mesmo lado, a querer
desmontar no santuário; nem mesmo haverá
quaisquer presas
     de marfim como esses dois chifres que valentes
         se baixam quando tosse um tigre
     e transformam o pelo
            num inútil despojo.

         O búfalo das Índias,
levado pelos pastores pequenos de pernas nuas
ao curral de palha onde
     o guardam, não tem comparação a temer
         com o bisonte, com a parelha,
     nem com nenhum parente
            da genealogia do gado.




quarta-feira, 15 de março de 2017

"The Buffalo" - Marianne Moore

Contextualização

Marianne Moore foi uma poetiza modernista nascida no Missouri em 1887. Os seus estudos universitários foram em grande parte feitos nas áreas da Biologia e da Histologia. A poesia de Moore é maioritariamente descritiva e reflectiva, algo que se insere na corrente Modernista literária. “The Buffalo” pertence à colectânea “Selected Poems”, lançada com o encorajamento de figuras com oT.S.Eliot. O poema baseia-se na observação de objectos como pinturas, fotografias e outras formas de arte, que são de alguma forma traduzidas para linguagem literária. Este processo é conhecido como Écfrase e Moore utiliza-o para descrever minuciosamente na sua poesia os objectos que observa. 

O Poema

Black in blazonry means
prudence; and niger, unpropitious. Might
hematite
black, compactly incurved horns on bison
have significance? The
soot-brown tail-tuft on
a kind of lion-
tail; what would that express?
And John Steuart Curry's Ajax pulling
"Ajax" - John Steuart Curry
grass—no ring
in his nose—two birds standing on the back?
The modern
ox does not look like the Augsburg ox's
portrait. Yes,
the great extinct wild Aurochs was a beast
to paint, with stripe and six-
foot horn-spread—decreased
to Siamese-cat-
Brown Swiss size or zebu-
shape, with white plush dewlap and warm-blooded
hump; to red-
skinned Hereford or to piebald Holstein. Yet
some would say the sparse-haired
buffalo has met
human notions best—
unlike the elephant,
both jewel and jeweller in the hairs
that he wears
no white-nosed Vermont ox yoked with its twin
to haul the maple-sap,
"Over-Drove Ox" - Thomas Rowlandson
up to their knees in
snow; no freakishly
Over-Drove Ox drawn by
Rowlandson, but the Indian buffalo,
albino-
footed, standing in a mud-lake with a
day's work to do. No white
Christian heathen, way-
laid by the Buddha,
serves him so well as the
buffalo—as mettlesome as if check-
reined—free neck

stretching out, and snake tail in a half-twist
on the flank; nor will so
cheerfully assist
the Sage sitting with
feet at the same side, to
dismount at the shrine; nor are there any
ivory
tusks like those two horns which when a tiger
coughs, are lowered fiercely
and convert the fur
to harmless rubbish.
The Indian buffalo,
led by bare-leggèd herd-boys to a hay
hut where they
stable it, need not fear comparison
with bison, with the twins,
Indeed with any/
of ox ancestry.


Encontramos várias referências a obras observadas por Moore como a pintura "Ajax" the John Steuart Curry ou o "Over-Drove Ox" de Thomas Rowlandson. As imagens são o ponto de partida para as descrições dos vários espécimes de bois e búfalos. Enquanto que no início do poema as descrições incidem mais nos animais "europeus", o Indian Buffalo é de entre todos o menos domesticável e mais natural e pujante. Os vários espécimes descritos colocam vários entraves à tradução, pois é difícil precisar numa primeira leitura a qual espécime as descrições pertencem assim como as suas interpretações se tornam confusas. 

segunda-feira, 13 de março de 2017

The Fables of La Fontaine, translated by Marianne Moore

Jean de La Fontaine (1621-1695), poeta e fabulista francês, publicou a sua grande obra, Fables, entre os anos 1668 e 1694, num total de 12 volumes. O tempo entre publicações ditou diferentes influências na obra de La Fontaine. Como refere Laurence Stapleton, na obra Marianne Moore, The Poet’s Advance, os últimos livros revelam uma novidade e um desenvolvimento da sua arte. Refira-se, a este propósito, que La Fontaine conviveu com Molière e Racine, tendo também travado conhecimento com  Bergier, um viajante que teria estado na Síria e no Egipto e vivera na Índia. Através dele conheceu o trabalho do fabulista indiano Pilpay, que lhe serviu de inspiração para a escrita de algumas das suas últimas fábulas.

Na época de La Fontaine, a fábula era uma forma de escrita popular. O público de então estava familiarizado com as fábulas de Esopo e apto a perceber a novidade de tratamento de temas familiares, bem como a ironia de La Fontaine, que ultrapassava a moral do tempo de Esopo.

As criaturas das fábulas de La Fontaine não procuram aprovar ou reprovar o mundo, mas  apresentá-lo como ele é, utilizando os animais como forma de representar as qualidades humanas. Uma típica fábula é uma história que conta uma moral. Os animais comportam-se de uma forma que os leitores sabem ser apenas humana. La Fontaine recorre frequentemente às mesmas personagens para representar as mesmas virtudes e defeitos, tirando partido do facto de o leitor já saber que um lobo é voraz, uma raposa, astuta e um carneiro, inocente.

Nascida em 1887, Marianne Moore foi uma escritora e editora modernista norte-americana, que se notabilizou como poeta. Também Moore escreveu sobre animais. No entanto, ao contrário dos animais de La Fontaine, que representam os seres humanos, os animais de M. M. comportam-se como animais. Não visam satirizar o comportamento humano, embora o ser humano possa neles observar formas de comportamento.

Moore iniciou a tradução das Fábulas em 1945, um trabalho que duraria cerca de oito anos. Como refere no prefácio da obra, seguiu o exemplo da tradução poética de Ezra Pound: «the practice of Ezra Pound has been for me a governing principle». Deste modo, Moore procurou  a ordem natural das palavras, (sujeito, predicado, objecto), privilegiando a voz activa sempre que possível, eliminando palavras mortas, e recriando a rima.

Ao analisar a tradução de Moore, devemos por isso ter presente aquilo a que a autora se propôs, nomeadamente as especificidades técnicas — além de procurar replicar a métrica do original, Moore tentou obter uma rima equivalente.


Segue-se um excerto da tradução de Marianne Moore da fábula «La souris metamorphosée en fille», com o título «The Mouse Metamorphosed into a Maid», onde a rima foi assinalada a negrito. Apresentamos também uma breve análise às estratégias de tradução adoptadas por Moore, definindo-as de acordo com a classificação oferecida por Chesterman & Wagner. 


Linhas 1-2. Mudança de ênfase e adição de informação. La Fontaine escreve «Je ne l’eusse pas ramassée», ou seja, o sujeito poético, não apanhou ou auxiliou o rato que caiu ao chão. M. M. introduz a noção de Hindu e clarifica o comportamento contrastivo entre sujeito poético/ocidental e brâmane/oriental.
Linhas 3-4. «Mais un Bramin le fit» (um brâmane fê-lo, ou seja, apanha o rato do chão). Unit shift: O verbo francês fazer é traduzido por «straightened the fur which the beak had marred», uma frase que acrescenta informação e antecipa uma informação que no original surge dois versos depois «fort froissée».
Linha 7. Abstraction change : «cette sorte de prochain» passa a «mouse»
Linhas 6-7. Clause structure change, há uma inversão dos elementos da frase. No original, a frase começa pelo complemento «De cette sorte de prochain». Por outro lado, a frase passa de afirmativa a negativa.
Linha 7. Relação de sinonímia. «le peuple bramin» passa a «a brahmin»
Linha 8. Thematic focus change. No original, o brâmane trata o rato como um irmão. Na tradução, o foco altera-se para o comportamento hipotético — o brâmane mais depressa desprezaria um parente. A ideia de irmão dá lugar a um hipónimo, parente.
Linha 9. «worm» surge como equivalente de «ciron», uma espécie de ácaro presente no queijo. Talvez possa ser considerada uma estratégia de cultural filtering.
Linha 14. Explicitness change. M. M. explicita uma ideia apenas implícita no original e faz um juízo de valor. Veja-se «un corps qu’elle eût eu pour hôte au temps jadis». São acrescentadas as noções de «unfair» e de «true identity».
Linha 15. Reprodução de uma aliteração. No original «Le sorcier en fit une fille», na tradução «girl and real».
Linha 19. Trope change. Adição de sinédoque. Referência a Helen, que surge em representação da beleza grega «grecque beauté».
Linha 20. Literal translation. «Vous n’avez qu’à choisir».
Linha 23. Reprodução de aliteração. «De l’honneur d’être votre». «For the honor of marrying you.»
Linha 25. Trope change. «Donner ma voix» é uma metáfora para votar, que se perde com a escolha de «choose».
Linha 26. Inversão da ordem dos elementos da frase. «Soleil, s’écria le Bramin à genoux».
Linha 26. A noção de «heir» vem substituir a noção de «gendre», havendo assim, mais do que uma relação de sinonímia, uma explicitação de nova informação.
Linha 28. Abstraction change. «Ce nuage épais» dá lugar a «a cloud», uma nuvem concreta passa a uma nuvem indiferenciada.
Linha 29. Scheme change. Repetição vem substituir aliteração. «Est plus puissant que moi, puisqu’il cache…» — «than I and I be…»
Linha 31. Transposition. A nuvem voadora/volante («nuage volant») dá lugar a «cloud, sailing on». Logo, o adjectivo «volant» passa a nuvem que navega. 

Como ler um poema

bons conselhos aqui: http://www.theatlantic.com/entertainment/archive/2014/11/how-to-read-poetry-a-step-by-step-guide/380657/